Os investimentos necessários para ampliar o transporte de massa e
obras viárias para resolver os principais gargalos do Rio até a
abertura das Olimpíadas, em 5 de agosto de 2016, vão ultrapassar os R$
7 bilhões, nos próximos seis anos e meio. A conta, que representa
gastos de mais de R$1 bilhão por ano, ainda não está fechada por
depender de licitações e parcerias público-privadas, muitas das quais
ainda longe de se tornarem realidade.
Especialistas afirmam que os planos são viáveis, mas ressaltam que,
por falta de um elemento que justificasse a urgência para resolver o
problema (caso dos Jogos Olímpicos), o Rio perdeu tempo para tirar do
papel projetos que poderiam resolver os gargalos do trânsito.
No cálculo, estão apenas estimativas de gastos com serviços de
transportes ou ampliação de vias existentes. Não está incluído, por
exemplo, o projeto do trem-bala entre Rio e São Paulo, que vem sendo
analisado pela União e que não consta no caderno de encargos entregue
ao Comitê Olímpico Internacional (COI).
- A cidade cresceu sem criar e implantar corredores de tráfego para o
transporte de massa. Na última década, a frota de veículos de passeio
dobrou enquanto a velocidade dos ônibus caiu pela metade. A quantidade
de tráfego é mínima e nem sempre privilegia o transporte coletivo. É
só observar a faixa seletiva da Avenida Brasil, por onde hoje trafegam
táxis, vans e quem mais conseguir autorização - critica o engenheiro
de transportes Sérgio Balloussier.
R$ 4 bilhões para a linha 4 do metrô
Os trens, que na década de 80 transportavam um milhão de pessoas por
dia, entraram em decadência por falta de investimentos, chegando a uma
média diária de 150 mil usuários em 1997. No fim da década de 90, o
sistema ferroviário foi privatizado, mas os investimentos demoraram a
sair; Hoje, a SuperVia ainda tem em operação 49 trens com mais de 40
anos de uso, que não podem ser modernizados.
- Quando os trens foram privatizados, havia uma previsão de
investimentos do estado e da concessionária. Mas faltou visão aos
governos seguintes, que não cumpriram o planejado.
Com o metrô aconteceu situação parecida, houve falta de investimentos
nos governos de Leonel Brizola (1983-1986 e 1991-1994) e nenhuma
estação foi inaugurada na administração Moreira Franco (1987-1990),
apesar de vários buracos terem sido abertos. A consequência é a
descontinuidade na melhoria dos serviços – disse o ex vice governador
e deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha (PSDB).
Os investimentos públicos em novos trens começaram no governo Rosinha
Garotiho (2003-2006), quando a demanda de passageiros voltou a
crescer. No fim desde ano chegarão 30 carros, comprados pelo
governador Sérgio Cabral. A SuperVia calcula que, para melhorar o
sistema, será preciso gastar pelo menos R$ 1 bilhão na aquisição de 90
composições, que teriam de ser encomendadas até 2012.
Há um ano, a SuperVia propôs uma parceria com o estado, que prevê
investimentos conjuntos no sistema ferroviário que permitam o
transporte de um milhão de passageiros por dia. Em troca, a empresa
teria a concessão, que vende em 2023, renovada até 2048. A proposta
vem sendo estudada pela agência reguladora de transportes públicos
(Agetransp).
No caso do metrô, R$ 4 bilhões deverão ser gastos na construção e na
operação da linha 4 (Barra-Gávea). O projeto inclui uma conexão com a
linha 1, que ganharia duas estações: Bartolomeu Mitre (Leblon) e PUC
(Gávea). Embora Cabral dê como certo o início das obras no trecho
Barra-Gávea em maio, faltam detalhes burocráticos. O estado pretende
investir R$ 1 bilhão, dinheiro que sairia da venda de terrenos
remanescentes do metrô. Mas admite que poderá precisar de recursos
federais para concluir a obra.
- Temos de ajustar os contratos. A ideia é cobrar uma tarifa única, no
mesmo valor que é pago hoje nas linhas 1 e 2 (R$2,80). Mas, pelo
contrato original, o operador da linha 4 teria o direito de cobrar R$
8 pela viagem – explicou o secretário-chefe da Casa Civil, Régis
Fitchner.
Transcarioca, cinco versões em 20 anos
O engenheiro Márcio Queiroz Ribeiro, ex-secretário municipal de
Transportes, é entrou a reclamar do tempo perdido para tirar do papel
os novos corredores viários. Segundo ele, há mais de uma década foram
estudados os traçados do anel viário do Rio. Isso inclui a Ligação C
(Barra-Deodoro), ainda sem orçamento definitivo, e o Túnel da Grota
Funda, que deveria ter sido construído dez anos atrás.
- Tradicionalmente, os governos investem menos de 2% do orçamento na
infraestrutura de transportes. O último grande investimento em
sinalização e controle de tráfego é da década de 90. Na época, foram
gastos quase US$ 50 milhões – afirmou Ribeiro.
Outro exemplo de solução que demora a sair do papel é o Transcarioca
(antigo T-5). Até ser licitado como uma linha de ônibus articulada
ligando a Barra à Zona Norte, integrada ao metrô e aos trens, o
projeto teve cinco versões nos últimos 20 anos. Originalmente, a frota
planejada não seria de ônibus, mas de veículos leves sobre trilhos. O
custo é estimado em R$ 1 bilhão, mas a conta ainda não fechou.
A licitação prevê duas etapas de obras: Barra-Madureira até 2012 e
Madureira-Penha até 2013. Mas a União, que se comprometeu em repassar
R$ 1 bilhão para o projeto, exige uma complementação até 2016, com
conexão até o Aeroporto Tom Jobim. Ainda não está definido quem vai
pagar a conta dessa complementação.
- O trecho complementar ainda está em fase de planejamento. Não temos
como estimar custos – disse o secretário municipal de Transportes,
Alexandre Sansão.
O secretário acrescentou que ainda não está decidida qual a melhor
intervenção viária no eixo Zona SulBarra que cumpra as exigências do
COI, que considera as ligações existentes insuficientes para atender
aos padrões olímpicos.
Fonte: O Globo, 25/01/2010