O sonho brasileiro de ligar os oceanos Atlântico e Pacífico
por ferrovia, passando por Minas Gerais, vai se tornar realidade.
O estado, de história fortemente vinculada a locomotivas
e vagões, receberá o segundo maior trecho dos 4,4
mil quilômetros de trilhos a serem assentados da Estrada de
Ferro 354 (EF 354), que se conectará ao sistema ferroviário
do Peru. Embora ainda no papel, o projeto, batizado de Ferrovia
Transcontinental, com custo estimado de R$ 10 bilhões, revigora
a esperança de maior desenvolvimento de regiões e
municípios que cresceram em torno de estações
de trens ou que viveram o auge político, econômico
e social nas idas e vindas das composições.
O corredor mineiro da ferrovia, que será a maior do país,
contempla, inicialmente, as cidades de Muriaé (Zona da Mata),
Ipatinga (Vale do Aço) e Paracatu (Região Noroeste).
Na Zona da Mata, a EF 354 cortará linhas e ramais da primeira
ferrovia de Minas, a Estrada de Ferro Leopoldina, que começou
a ser construída no fim do Império, em 1872. No fim
do século 19, o controle acionário foi transferido
para credores britânicos, que a rebatizaram de The Leopoldina
Railway Company. A malha voltou para o controle do governo brasileiro
somente em 1950, com o declínio da lavoura cafeeira na Zona
da Mata.
Sebastião Praxedes, de 70 anos, espera que, assim como a
saudosa Leopoldina, a Transcontinental tenha vários ramais
e que pelo menos um deles chegue a Eugenópolis, a 25 quilômetros
de Muriaé. “Naquele tempo, a cidade era mais rica”,
conta o ferroviário aposentado, que trabalhou durante 32
anos, inclusive, na fase final, na manutenção e desmontagem
de segmentos da Leopoldina, desativada em 1965. Em seu ápice,
a antiga estrada de ferro teve mais de 3,2 mil quilômetros
de trilhos.
Sebastião conta, com orgulho, que criou os cinco filhos
trabalhando sobre dormentes e trilhos da Leopoldina, que, posteriormente,
passou a integrar a Rede Ferroviária Federal (RFFSA), extinta,
por sua vez, em 2007. O aposentado mora em frente à estação
ferroviária de Coelho Bastos, última lembrança
da Leopoldina em Eugenópolis. O prédio abriga hoje
uma agência bancária e as secretarias municipais de
Agricultura e Educação.
Com a autoridade de quem viveu e se depara diariamente com parte
da história ferroviária, ele conta que uma das linhas
principais da Leopoldina passava por Eugenópolis, ligando
Manhuaçu, também na Zona da Mata, ao Rio de Janeiro,
então capital do país. “Transportava café,
leite, gado, mas foi caindo até ser eliminada. Todo mundo
chorou na época”, lembra.
Ex-prefeito, advogado e autor do livro O vale do gavião,
que desvenda o passado de Eugenópolis, Antônio Soares
Ramos, o Niquito, confirma a importância da ferrovia para
o progresso da cidade. “O município produzia tanto
café que foram erguidas três estações:
São Miguel, Coelho Bastos e Antônio Prado.” Esta
última acabou dando origem ao município de Antônio
Prado de Minas.
Intercâmbio
O município de Recreio, a 40 quilômetros do corredor
previsto para a Transcontinental, na Zona da Mata, tem o passado
e o presente ligados às ferrovias. O povoado que originou
a cidade surgiu ao redor de uma estação durante a
abertura da linha principal da Leopoldina. O entroncamento ferroviário
de Recreio, que faz ligações com outras cidades da
região, Espírito Santo e Rio, é um dos poucos
que sobraram da histórica ferrovia. Hoje, os trilhos são
explorados pela Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), empresa que
surgiu depois da desestatização da RFFSA. Recreio
sedia uma das oficinas da companhia, que transporta bauxita de Itamarati
de Minas, embarcada em Cataguases, para o interior de São
Paulo. Já a estação foi transformada em museu
ferroviário.
Chefe de escritório da Leopoldina, Aristides Dorigo, de
89 anos, um dos 200 ferroviários aposentados da cidade, ficou
animado com o projeto da nova estrada de ferro. “Vai atender
os reclames do povo, que quer a volta daquela movimentação
que havia na região”, enfatizou, lembrando que, em
Recreio, o tráfego chegava a 43 trens por dia, que transportavam
pessoas e mercadorias. “O intercâmbio com colegas de
fora era grande.”
Fonte: O Estado de Minas 27/5/2009